Morre Dona Nair Machado Wanderley Lindoso, aos 91 anos

Havia dois meses que ela estava internada num hospital da cidade do Recife
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Dona Nair com seu único filho, Djalma Lindoso Filho, o Djalminha (Fotos; arquivo pessoal)

Conversei com D. Nair Machado Lindoso em setembro de 2014, em sua ampla residência à beira mar da cidade de Maragogi, onde fui muito bem recebido. A ideia era escrever seu perfil para o portal. Uma grande mulher, que sempre admirei. Sempre nos cumprimentávamos na rua. Foi minha primeira professora de Português, trabalhamos juntos em algumas eleições, como escrutinadores, no tempo em que o voto era impresso. De personalidade forte, mas dotada de bom humor, nos divertimos nas contagens que demoravam dias, varavam as noites, sob o olhar severo do juiz Adamastor, outra figura inesquecível de minhas memórias.

Hoje cedo, ao acessar meu Instagram, sou tomado de súbito por essas palavras: “O amor, como o sentimento mais puro e nobre nos dado pelo criador, torna-se pleno, apoderando-se do coração de uma mãe de forma avassaladora. Para o filho, mais duro do que perder quem ele ama, é perder a pessoa que mais o ama na vida. Uma dura ruptura física, de uma relação que materializa a própria essência da existência humana. Esta mãe sempre guerreira, bela, honesta, provedora, carinhosa, amorosa, braba feito uma leoa, dominadora. Incentivou seu filho a conquistar tantas coisas que se mostraram fundamentais na vida dele. Escolaridade, liberdade, família, violão, e outras e outras tantas. Vá minha mãe, ao encontro do Criador. Continue nos iluminando e protegendo. Te amamos pra sempre”, escreveu seu único filho, Djalma Acioli Lindoso Filho, o Djalminha.

Dona Dona Nair Machado faleceu na noite dessa quinta-feira (26), aos 91 anos de idade, no Hospital Santa Joana, na cidade do Recife, Pernambuco, onde estava internada havia dois meses. De sua geração, só restam Dona Leoni e Dona Lalá, sua irmã. Outras matriarcas, amigas entre si, que também contribuíram com uma boa fatia para o nosso município, se despediram de nós antes, como Dona Lourdes Braga, Dona Lili, Dona Aucina, Dona Neusa, Dona Olga, Dona Terci, Dona Zuleide.

Em seu perfil, escrevi que Dona Nair estava para Maragogi como Carmen Mayrink Veiga esteve durante algumas décadas para o Rio de Janeiro. Ambas foram ícones de uma sociedade que perdeu seu charme ao longo dos anos. Sinônimos de classe e elegância, as duas foram figuras imponentes. O falecimento de Dona Nair deixa uma lacuna na sociedade de nosso município.


O perfil

Herdou o sobrenome Machado do pai, José Machado Filho, funcionário público federal, senhor de um conhecimento histórico invejável; o Wanderley pegou da mãe, Palmira Wanderley Machado, companheira inseparável e mãe exemplar; e o Lindoso veio do marido, Djalma Lindoso, com quem se casou muito jovem, teve o único filho, e manteve um casamento de 47 anos, até o falecimento dele, em janeiro de 2011.

Dona Nair foi educada com freiras francesas. Chique, não? No colégio Santíssimo Sacramento, em Maceió. Ali ficou interna por nove anos, até concluir o Ensino Médio. Antes, porém, cursou o primário na escola estadual Dr. Batista Acioli, em Maragogi, onde, depois de concluir a Faculdade de Estudos Sociais, foi ser a diretora absoluta e ininterrupta por trinta e cinco anos.

Quem não se lembra de seus memoráveis e antológicos desfiles de 7 de Setembro? Só quem viveu aquela época conheceu a legitimidade, a verdadeira identidade cultural de nosso povo. Só as gerações que passaram por lá sabem das rixas que existiam entre as duas únicas escolas de então. A outra à que nos referimos, era a vizinha, Dr. José Jorge de Farias Sales (onde hoje funciona o Cartório Eleitoral), administrada por outra mulher não menos forte, Yone Silvia Henzel, a temida Irmã Júlia, que se foi antes. Era uma coisa quase política. Quem fazia o melhor desfile? E as fofocas: Será que Dona Nair falava com a Irmã Júlia ou eram inimigas? Nós, os alunos, ciumentos, achávamos que não era certo as duas serem amigas. Mas essas duas mulheres ímpares sempre sentiram um respeito mútuo, sempre foram amigas.

Nos desfiles, enquanto a escola do município trazia quase todos os alunos vestidos com sua tradicional farda, Dona Nair abusava do colorido, da ornamentação, das partes representativas; reis e rainhas, personagens históricos ou do nosso folclore. Os aplausos eram todos para o Batista, aos alunos do Dr. Jorge, onde sempre estudei, era reservado um papel secundário.

Mas que ninguém pense que a mão de ferro das duas diretoras se restringia aos desfiles. Não, não. Tínhamos também um ensino de boa qualidade. Naquele tempo, aprendíamos, sim, em escolas públicas. Não era o que é hoje, com essa evasão de alunos para a rede privada de ensino.

Sobre seu casamento, Dona Nair confessou: “Sempre fui feliz no meu convívio amoroso, amei consideravelmente o meu marido.” Verdade. O casal sempre levou uma vida discreta, sem nenhuma mácula sobre suas imagens pessoais. Contudo, a presença opulenta e ofuscante de Dona Nair sempre foi tão forte que apagava a figura social, mas não profissional, do companheiro. Doutor Djalma, como sempre foi chamado, teve sua igual relevância para o município, como dono do Cartório do Único Ofício de Notas e Registro de Imóveis, e também era bastante popular. Mas parecia que ele só existia ali dentro do seu reduto, dentro da sua intimidade. No mais, Dona Nair brilhava, imperava sozinha.

Sempre demasiadamente católica, Dona Nair diz: “Minha fé é imensa. Quando ainda é possível, compareço as missas aos domingos.” Por oito anos, decorou, sozinha, o andor do glorioso Santo Antônio, Padroeiro de Maragogi. Foi tirada do posto e disso guarda certa mágoa. Hoje, a incumbência de ornamentação do andor é dada, anualmente, a uma pessoa diferente. “Nunca somos reconhecidos por fazer o bem, nunca há agradecimento. Nunca precisei da ajuda de ninguém para ornamentar o andor”, diz.

Dona Nair, a artista, dava show nas ornamentações caprichadas e lindíssimas. E, além do andor, outra vez, a presença altiva e triunfante de dessa mulher opulenta roubava a cena. Os olhos curiosos a buscavam e a encontravam lá atrás, como se guardasse a imagem do Santo. Elegantérrima, equilibrando-se majestosamente sobre seus inseparáveis sapatos de salto alto, lá vinha ela, se despontando por entre a multidão de católicos.

Desfile de 7 de setembro da época.

Quem nunca ouviu em Maragogi: “Tá parecendo a Nair Machado”? Porque ela sempre foi tradução de elegância, expressão máxima do que mais tínhamos de nobre. Extremamente vaidosa, é missão impossível flagrá-la sem alguma maquiagem realçando a beleza do seu rosto. As marcas registradas de sua aparência são as roupas esvoaçantes de seda pura com estampas florais, como que contagiada pela primavera ou o eterno verão de Maragogi; o cabelo aloirado, arrumado de forma impecável; o batom seguindo o vermelho vivo das unhas; os colares de pérolas, os muitos anéis de pedras.

Politicamente, se Dona Nair nunca concorreu a cargo eletivo, seus tios, irmãos de sua mãe, foram prefeitos, durante dois mandatos: Eurico Acioli Wanderley e Maria Acioli Wanderley, respectivamente, dos municípios de Maragogi e Jacuípe. E na sua bela casa à beira mar passaram famílias de importantes políticos de âmbito estadual, feito Arnon de Mello e Leda Collor de Melo; e vários prefeitos de outros Estados e Municípios. Entretanto, sua relação mais querida e especial é com o Senador da República Fernando Collor de Melo, e, em Maragogi, com o ex-prefeito Marcos José Dias Viana, de quem é amiga pessoal.

Embora cosmopolita – conhece a Inglaterra, França, Suíça, Viena, Holanda, Alemanha, Budapeste, Praga, Argentina, Estados Unidos –, confessa que o melhor lugar do mundo ainda é o Brasil. E que a fase mais marcante da sua vida foi a infância, na companhia de seus pais.

Humana, ela se diz espiritualmente privilegiada, por isso valoriza cada minuto da vida, desfrutando de tudo que ainda pode, não renunciando às suas atividades cotidianas. Hierárquica, ela desabafa: “A sociedade de Maragogi, antigamente, era mais especial. Hoje tudo se banalizou.”

Dona Nair Machado Wanderley Lindoso: personagem histórico e patrimônio cultural de Maragogi.

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3 respostas

  1. Sempre o admirei e respeitei como prima e sem dúvida para mim,uma defensora no que eu mais precisei,posso dizer,minha segunda mão,tudo isso me deixa a certeza que Deus o chamou para lá no céu,lecionar e direcionar todos professores de maragogi que lá se encontra,o maragoginew está de parabéns pelas bela frase aqui escrita,que Deus o receba de braços abertos!!!

  2. Só corrigindo um dos nomes das amigas inseparáveis, em vez de dona Aucina é dona Orcina Correia( minha avó do coração), a primeira que se foi dessa geração de matriarca.❤
    Muito bonito o seu texto, parabéns👏👏👏

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