As heranças da escravidão e o persistente racismo estrutural no Brasil

A escravidão negra no Brasil deixou profundas sequelas na sociedade brasileira, produzindo uma herança de desigualdade social e preconceito que se perpetua por séculos. O período pós-abolição foi um dos fatores que mais fortaleceram essa exclusão estrutural, pois a liberdade, assinada pela Princesa Isabel em 13 de maio de 1888, chegou como uma libertação incompleta que, ao não oferecer condições mínimas, selou a exclusão estrutural.

Após séculos de escravidão, a população negra foi essencial para erguer a economia brasileira, do açúcar ao café, da construção civil ao trabalho doméstico. A importância desse trabalho era tão evidente que até estrangeiros reconheciam o quanto o país dependia das pessoas escravizadas. A educadora alemã Ina von Binzer, que viveu no Brasil no fim do século XIX, registrou:
“Neste país, os negros ocupam o papel principal. São responsáveis por todo o trabalho e produzem toda a riqueza desta terra. O brasileiro branco simplesmente não trabalha.”

Esse relato evidencia a importância da mão de obra negra para o desenvolvimento econômico do Brasil.

Com a abolição, cerca de 700 mil pessoas foram libertas, mas imediatamente lançadas à própria sorte. Deixaram de ser juridicamente escravizadas, mas continuaram excluídas de todos os meios de participação social. Não por acaso, o Brasil foi o último país das Américas a abolir a escravidão, e essa demora aprofundou as desigualdades que permanecem até hoje.

A ausência de reforma agrária, distribuição de terras, indenização, programas de alfabetização ou direitos trabalhistas colocou os negros em situação de completo abandono. Muitos foram obrigados a negociar com seus antigos senhores o próprio trabalho em troca de comida e abrigo, perpetuando relações de dependência e submissão. Esses direitos só chegaram décadas depois e, ainda assim, marcados por forte exclusão da população negra. A liberdade foi concedida de forma formal, mas não acompanhada das condições materiais necessárias para que fosse exercida com dignidade.

Sem estrutura mínima após a abolição, consolidou-se no Brasil uma sociedade racista, desigual e seletiva. Ao povo negro, foram negadas oportunidades e acesso aos espaços de poder, enquanto a população branca foi favorecida. Em 1890, mais de 80% da população negra era analfabeta, fator determinante para o atraso social dos ex-escravizados.

Entre 1888 e 1930, algo em torno de 4 milhões de imigrantes europeus foram trazidos ao Brasil. Essa política, parte de um projeto de branqueamento da nação, garantia que eles recebessem salários, moradia, ferramentas e acesso a terras, benefícios negados aos negros libertos. Sem terra ou moradia, a população negra passou a ocupar morros, margens de rios e áreas abandonadas. A primeira favela registrada no Rio de Janeiro (Morro da Providência), em 1897, era majoritariamente formada por pessoas negras, marcando o início da segregação geográfica que persiste até hoje.

O racismo estrutural também se expressou na política. Embora a escravidão tivesse acabado, negros não tinham condições materiais de votar, pois o voto exigia renda mínima, alfabetização e documentos burocráticos inacessíveis à maioria. Assim, permaneceram fora da vida política por décadas. Na história, o Brasil teve 39 presidentes até os dias atuais, e apenas um foi negro: Nilo Peçanha, o 7º presidente, que governou entre 1909 e 1910 após a morte de Afonso Pena, de quem era vice.

O Brasil vem, ano após ano, reproduzindo um processo que desfavorece o povo negro, que deu seu sangue e suor por essa terra, a troco de sobrevivência e esperança de uma vida melhor, que ainda hoje lhe é negada. O resultado é o que vemos hoje: racismo, desigualdade social, criminalização pela cor da pele e falta de oportunidades, abrindo espaço para uma pobreza hereditária que precisa urgentemente de mais políticas públicas para ser superada.

A memória que não pode ser silenciada

“O povo japonês lembra das bombas atômicas e suas vítimas. Os judeus nunca esquecem o Holocausto. Os europeus têm seus memoriais de guerra, e estão mais do que certos. São histórias que precisam ser contadas, para que nunca se repitam. Mas quando a gente é preto, a história é outra. Nosso passado vem com um manual diferente: ‘Esquece isso aí’, ‘Isso já foi’, ‘Supera’.
Como se a escravidão fosse só um capítulo nos livros, e não uma ferida que ainda sangra. Nossos ancestrais foram arrancados da África, acorrentados, estuprados, torturados e tratados como mercadoria. E aí dizem que temos que virar a página? Como? A verdade é que o racismo não é coisa do passado. Ele está no presente, vivo e cruel. Precisamos combatê-lo sem ressalvas.” @reispy

Genocídios e violências que marcaram a história

O Tráfico Transatlântico de Escravos arrancou de 10 a 12 milhões de africanos de suas terras. Antes mesmo de chegarem às Américas, a caminho do Rio de Janeiro , que era a principal porta de entrada de navios negreiros (tumbeiros), cerca de 300 mil morreram, tendo o mar como sepultura.

Nas Américas, a escravidão causou milhões de mortes adicionais em plantações, minas e casas-grandes. No Congo, sob o domínio de Leopoldo II, estima-se que 8 a 10 milhões de africanos foram exterminados. Em toda a África colonizada, entre guerras, fome forçada e trabalho compulsório, calcula-se que outros 10 a 15 milhões tenham morrido. Tantas tragédias não podem ser silenciadas por preconceitos encobertos por opiniões infundadas na própria ignorância.

Honrar essas vidas é um dever histórico. Pelos que sofreram, pelos que lutaram por liberdade sem jamais vê-la chegar e por todos que ainda hoje enfrentam desigualdades e julgamentos pela cor da pele, a luta contra o racismo deve permanecer firme.

A PELE

Fátima Trinchão – poeta

Esta pele que me cobre,
Esta pele que me envolve
o corpo,
Esta pele que me marca
e me faz único
em meio a tantos,
Esta pele que me define,
manto de extrema leveza,
como a noite repleta d’estrelas,
cobre o mundo,
a terra inteira,
pele preta,
preta pele,
beleza que me acaricia.

Esta pele que me veste,
em claro e sereno rito,
esta pele que me encobre,
manto de extrema grandeza.

Esta pele que me marca,
que me marca e me comove,
esta pele que me encobre
como a noite a terra inteira,
em claro e profundo rito,
manto de extrema grandeza.

É esta a pele que habito.

O reconhecimento do 20 de novembro como Dia da Consciência Negra, em vez do 13 de maio, foi um passo fundamental nesse processo, pois celebra Zumbi dos Palmares e a resistência popular, retirando o foco da “benfeitoria” imperial e colocando-o no foco principal, que é a luta do povo negro.

É necessário buscar mais políticas públicas que acolham a população negra do século XXI, para que a sociedade atual e as próximas gerações não sintam as sequelas de um sistema agressivo que ainda persiste. É igualmente fundamental reconhecer que essa transformação só será possível com a união firme entre negros e brancos, compartilhando responsabilidades e esforços na construção de uma sociedade verdadeiramente antirracista. Que a desigualdade social e todo tipo de racismo seja, um dia, apenas um capítulo superado da história. Pelos legados de Luís Gama, Zumbi, Dandara, Luiza Mahin, Carolina Maria de Jesus, Nilo Peçanha, Rosa Parks e tantos outros, a luta continua.

Texto: Eduardo Souza

REFERÊNCIAS :

  1. Wilson Center – Escravidão no Brasil
    https://www.wilsoncenter.org/blog-post/slavery-brazil
  2. TV Cultura – Documentário sobre escravidão
    https://www.youtube.com/watch?v=hVOzIEFF6Y0
  3. IBGE – Imigração por nacionalidade (1884–1933)
    https://brasil500anos.ibge.gov.br/estatisticas-do-povoamento/imigracao-por-nacionalidade-1884-1933.html
  4. G1 – História da primeira favela do Rio (1897)
    https://g1.globo.com/rio-de-janeiro/rio-450-anos/noticia/2015/01/conheca-historia-da-1-favela-do-rio-criada-ha-quase-120-anos.html
  5. Politize – Quem foi Nilo Peçanha?
    https://www.politize.com.br/nilo-pecanha/
  6. CEAO/UFBA – História do Negro no Brasil
    https://ceao.ufba.br/sites/ceao.ufba.br/files/livro2_historiadonegro-simples04.08.10.pdf
  7. Brasil de Fato – Genocídio no Congo sob Leopoldo II
    https://www.brasildefato.com.br/2018/07/03/rei-belga-matou-dez-milhoes-no-congo-hoje-um-filho-de-congoleses-e-idolo-da-selecao/
  8. Geledés – Escravidão nas Américas
    https://www.geledes.org.br/escravidao-nas-americas/
  9. Revista Z Cultura ­­– Cor e Letramento nos Censos https://revistaz.letras.ufrj.br/cor-e-letramento-nos-censos-recife-e-cercanias-1872-1890/

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