Emancipação, ato de libertação

Foto do Instagram @maragogimeuparaiso.br

Eu, Maragogi.

Assim como as pessoas, toda cidade possui uma fisionomia. Qual seria a minha fisionomia hoje aos 151 anos? Será que meus habitantes saberiam me descrever? Digamos que o mar seja a moldura e eu, Maragogi, a obra-prima, a pintura no interior dessa moldura. Seria eu apenas um cartão-postal com vista para o mar cuja estética não fincou raízes?

Quando me emanciparam, eu já estava aqui fazia tempo, como parte integrante de um imenso território. O que pretendo demonstrar é que não sou tão jovem como parece. Seria, se eu não tivesse história.  Sou um município que carrega uma silenciosa e conturbada história de invasões, de lutas sociais, de culturas e de esquecimentos. Na verdade, muitos esquecimentos.

Sou praieira, sou faceira e sou da fronteira. Situo-me diante do Oceano atlântico. Do outro lado, como dizia o célebre etno historiador Dirceu Lindoso (pouco lembrado por aqui), fica a África. Dizem que sou mar, mas o mar é quem me habita. Os indígenas já existiam em meu território desde muito tempo, pois sou terra e terra fértil. Já os invasores vieram pelo mar, Oceano. Os primeiros habitantes dessas paisagens, os povos originários, ou seja: os indígenas, nomearam quase tudo por aqui. E foram esquecidos. Eles nomearam rios, riachos, as vegetações e as plantas medicinais.

Plantas que foram utilizadas pelos pajés em seus rituais, depois pelas benzedeiras, também pelas parteiras e quiçá pelos laboratórios atuais. Criaram o modo de se cozer peixe, fazer moqueca, cultivar mandioca e fazer bijus. Esses habitantes sabiam o valor de cada pedaço do meu ecossistema, pois entendiam que a sobrevivência de todos os seres vivos dependia da preservação do sistema ambiental.

No entanto, esses habitantes já não residem em meu solo, foram expulsos de suas terras, muitos morreram em combates ou esquecidos pelo tempo. Muitos foram degolados, como mostram os documentos da época, outros tangidos como gado para outras terras. Depois vieram os estrangeiros, homens brancos que chegavam para povoar, modernizar e construir seus patrimônios. Povoar, povoaram. As custas de muita violência para poder construir seus patrimônios, seus belos casarões e cultivar suas grandes extensões de terras.

Porém, a tão esperada modernização se restringiu a eles próprios e as suas famílias. Se essa construção social tivesse sido justa, levando em consideração a população existente, renumerando a força de trabalho, disseminando educação às crianças sem distinção de cor ou etnia, levando em consideração a diversidade étnica e cultural dos filhos desse solo, teriam sim, modernizado alguma coisa. Olhar para o passado e perceber que tudo poderia ter sido diferente, nos faz crer que temos muito trabalho a fazer.

Assim como uma pessoa, eu também sou ligada a minha ancestralidade, porque a memória do passado ajuda a construir minha história presente. Evidenciar quem eu fui em épocas passadas, colabora na construção de uma fisionomia real de quem sou agora. O esquecimento é uma das facetas mais profundas e violentas que não se deve praticar. Toda fisionomia é carregada de marcas e memórias. Combater o esquecimento é salvar nossas memórias sociais.

É bom ressaltar que meu território sempre foi rico em recursos naturais e possui um ecossistema invejável. Consiste em mata atlântica, rios, riachos, mangues, mar, e muitas espécies de animais silvestres. Além de uma variedade de frutas e de peixes, tanto da água doce (rio), quanto do mar. Minha terra sempre foi fértil para o plantio. No entanto, devastaram minha floresta cujas madeiras, grande parte delas, foram vendidas e exportadas para construção de navios. Navios que também transportavam pessoas vindas de diversas regiões africanas, cujo sonhos lhes foram roubados aqui.

Sendo assim, restam apenas resquícios do que já foi um dia e um enorme esquecimento de quem fui. Entretanto, ainda assim, possuo um belo território. Já fui considerada povoado, fui vila e agora sou cidade. Primeiro me chamaram de Gamela, depois de Vila Izabel e finalmente quando fui elevada a categoria de cidade, recebi o nome de Maragogi. Nome do qual tenho orgulho. Nome de rio. Palavra indígena, que remete aos povos originários que aqui viveram. Hoje, andam esquecendo minha história e minha fisionomia. Quem eu sou?  Já me apelidaram até de “Caribe brasileiro”. Conhecer a nós mesmos é sempre o melhor a se fazer.

Em função da distopia gerada por imensa brutalidade do passado e pelas desigualdades sociais geradas nessa construção desigual, houve muita luta. Uma multidão de  homens e mulheres com seus filhos e filhas, lutaram e lutaram muitas e muitas vezes, porque acreditavam na liberdade e no direito a um pedaço de terra para plantar  e morar. Todos desejosos de viver e constituir famílias como estado de direito.

Porém, foram duramente perseguidos, presos ou mortos. As batalhas foram tão violentas que aos poucos os que resistiram e permaneceram vivos, prosseguiram suas vidas. Porém, devido as constantes perseguições, tiveram medo. Por esse motivo, carregaram e carregam suas dores e suas histórias em silêncio. Um silêncio sobre sua própria história. Para essa população, falar sobre as atrocidades sofridas naqueles tempos de opressão foi considerado como cometer um crime.

Então, por resistência, passaram a falar só entre eles para não esquecer. Por outro lado, os meios de comunicação daquela época e as elites locais, incluindo muitos daqueles que eram pagos para escreveram a história, legitimavam as narrativas de cima para baixo, enaltecendo suas próprias ideologias. Apenas a voz do opressor era ouvida e legitimada pela escrita.  O silenciamento forçado é uma violência sem precedentes que pode perdurar por séculos. Foi o que aconteceu.

Mas tudo que é vivido se torna memória e essas memórias, a partir de interesses da população com sua oralidade, como também de pesquisadoras e pesquisadores, se transformam em narrativas para novas gerações. Porque não há história muda, há histórias silenciadas. O que estamos fazendo para transformar essa triste memória do passado numa bela história de amor?

Hoje, em comemoração aos meus 151 anos de emancipação, lanço essa reflexão sobre quem somos hoje. Qual seria a nossa fisionomia coletiva? Antes de responder, pergunte aos seus ancestrais. Você verá que não chegou até aqui sozinho, porque outros vieram antes e abriram caminho, portanto nossa construção histórica é, ou deveria ser, um processo coletivo. Emancipação é o ato de Libertação!

Muito obrigada pela comemoração de meus 151 anos de emancipação!

Assinado: Maragogi.

Texto livre de Ismélia Tavares

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