Rãs fêmeas fingem estar mortas para evitar acasalamento com machos feios

Pesquisa mostra que, longe de passivas, elas adotam estratégias ativas — e arriscadas — para evitar machos indesejados.

O período reprodutivo das rãs está longe de ser apenas um ritual de canto e encontro. Em meio à intensa competição dos machos, as fêmeas enfrentam riscos reais: podem ser esmagadas ou até se afogar durante tentativas insistentes de acasalamento.

Por muito tempo, cientistas acreditaram que elas tinham um papel essencialmente passivo nesse processo. Mas um estudo recente publicado na revista Royal Society Open Science desafia essa visão ao revelar um conjunto de estratégias surpreendentes usadas pelas fêmeas para evitar parceiros indesejados.

“Em vez de serem passivas e indefesas, descobrimos que as fêmeas podem usar três estratégias principais para evitar machos com quem não querem acasalar — seja porque não estão prontas para procriar ou porque não querem acasalar com determinado macho”, afirmou Carolin Dittrich, coautora do estudo, em entrevista ao portal Live Science.

Três formas de dizer “não”

Para investigar o comportamento, os pesquisadores coletaram machos e fêmeas durante a época de reprodução e os observaram em tanques controlados. O que viram desmonta a ideia de passividade.

As fêmeas recorrem a três táticas principais:

1. Rolamento evasivo
A estratégia mais comum — adotada por 83% das fêmeas — consiste em rolar de costas enquanto o macho está sobre elas. O movimento coloca o macho em posição vulnerável, muitas vezes debaixo d’água, levando-o a soltar a fêmea para evitar afogamento.

2. Grunhidos de “rejeição”
Quase metade das fêmeas emite sons que imitam os chamados de soltura usados por machos para evitar montas equivocadas. Na prática, é como se a fêmea “enganasse” o macho com um sinal acústico típico de outro macho.

3. Imobilidade total
Cerca de um terço das fêmeas opta pela chamada imobilidade tônica — um estado em que permanecem rígidas, com os membros estendidos, aparentando estar mortas. O comportamento lembra a tanatose, embora os cientistas ainda debatam se há intenção consciente envolvida.

“Para nós, parece que a fêmea está se fingindo de morta, embora não possamos provar que é um comportamento consciente”, explicou Dittrich. “Poderia ser apenas uma resposta automática ao estresse.”

Estratégias que salvam — mas também colocam em risco

Apesar de eficazes, essas táticas não são isentas de perigo. O próprio comportamento de rolar pode levar a situações de quase afogamento, e a insistência dos machos pode resultar em esmagamento — um risco já documentado em agregações reprodutivas intensas.

Ainda assim, o estudo reforça uma mudança importante na forma como se entende o comportamento desses animais: mesmo sob forte pressão, as fêmeas não são apenas alvo das investidas, mas agentes ativos que tentam, como podem, controlar seu próprio destino reprodutivo.

No brejo, onde o som dos machos domina a paisagem, o silêncio — ou a imobilidade — pode ser a forma mais eficaz de resistência.

 

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