Goliarda Sapienza, a poeta inesperada

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2020 foi um ano inesperado por seus terríveis gestos. Foi o ano de grandes medos, de exílios em territórios, na grande maioria das vezes, estreitos sufocantes, prescritos por uma comunidade científica atordoada por ver a humanidade rápida e decididamente sendo exterminada por um vírus extremamente eficiente. Fui um dos contaminados por vilão definitivo, mas poupado, quem sabe, por motivos inexplicáveis, sendo eu de grupo de risco, pesado e tabagista, ele me deixou sem olfato e com pouco paladar. Minha convalescença foi, sem dúvida, rápida e inesperada. Os dias que fiquei no isolamento domiciliar não me trouxeram nenhuma abstinência. Recolhido sempre a minha casa próxima ao mar de Barra Grande, Maragogi, quando não enfronhado na vida de médico diária, assim permaneci confinado, lendo e escrevendo sem grandes sacrifícios.

A greve dos Correios, não cogitando aqui censurá-la por ter acontecido, me trouxe incômodos em não ter minhas encomendas livrescas entregues regularmente. Só quando a greve terminou é que conheci a ímpar Goliarda Sapienza (1924-1996), poeta nascida em Catânia na Sicília. Ela chegou dentro de seu único livro de poesia, Ancestral, publicado pela Âyné, tradução de Valentina Cantori, editora brasileira com um pé em Belo Horizonte e outro em Veneza, e que tem trazido publicações inéditas importantes para o nosso país, revelando o que de bom se anda publicando na Europa, em especial na Itália contemporânea.

Ancestral é uma coleção magnifica de diminutos poemas concluída por volta de 1950, quando Goliarda tinha 26 anos; mas só veio a ser publicada em 2013, 63 anos após de finda e 17 anos após o falecimento da poeta. Mas, de antemão, ela não era para ter sido um dos maiores nomes da literatura italiana do Novencento; sua vida estaria desde cedo ligada ao teatro e ao cinema, apesar de ter escrito neste interregno contos e romances; mas foi.

Espírito inquieto desde o inicio, desde a infância e adolescência; alguns que a conheceram a conceituavam como uma mocinha inteligente, bonita, tremendamente desobediente e contestadora. Não era para menos. Filha de um casal de revolucionários, não podia ser diferente. Sua mãe, Maria Giudice (1880-1953), foi uma figura de grande destaque no Partido Socialista Italiano, bem como jornalista e sindicalista; seu pai, Giuseppe Sapienza (1884-1949), foi advogado ligado aos sindicatos e socialista ativo. Os dois confrontaram com determinação e coragem o regime fascista até a queda do Duce Benito Mussolini em 1945. Goliarda na maturidade irá revelar em uma entrevista quando comentam sobre seu ateísmo o seguinte: “Me tiraram Deus, que tem o seu valor; só fiquei com o teatro e o ativismo.”

Goliarda Sapienza, como os pais, não refutou a segundo plano, a luta pelas causas sociais. No entanto, Ancestral é um livro de um forte e conciso lirismo, cortante, inusitado e inesperado. Dois pequenos poemas, amostras grátis, são: Na almofada cai arfante um sombra/Os teus cabelos dissolvem um breu/ em torno dos teus ombros/A tua vida/já se perde na note do sofá; outro poema é este: O que esperas no umbral/da minha casa? Amanheceu/ estou sozinha/e tenho medo/O que buscas no vazio/dos meus quartos?/ Estou sozinha/ e virei os espelhos todos.

O ineditismo deste Ancestral por tanto tempo está ligado a morte da mãe de Goliarda, à irmã vitimada por um bombardeio aéreo aliado sobre a Sicília, aos anos de internamento em clínica psiquiátrica da própria poeta devido a períodos de depressão.

Assim, Ancestral foi um livro inesperado. Tardio? Não. Quem o lê ainda pode sentir a jovialidade dos vinte e poucos anos de Goliarda. E permanentemente viva em sua necessária releitura.

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