“Caso Henry Borel: O casamento da psicopatia com o narcisismo perverso”, por Andréa Ladislau, doutora em psicanálise

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 Na última semana o Brasil foi surpreendido com mais uma história de dor e comoção, com a morte do pequeno Henry Borel, de quatro anos. Uma tragédia com mais dois personagens investigados como suspeitos do crime: a mãe de Henry e o padrasto do menino. Muitos se perguntam porque tanta crueldade. E o que chama a atenção é a frieza com que os fatos se deram, além do comportamento apresentado pela mãe e pelo padrasto. Traçando um perfil psicológico dos dois, diante do que tem sido noticiado, podemos ver que a união de traços de psicopatia do padrasto com sinais de narcisismo perverso da mãe pode ter sido determinante para o desfecho trágico dessa história.

A psicopatia é mais comum do que se pensa. Infelizmente, os psicopatas vivem entre nós e essa identificação não é muito simples. Estudos estatísticos demonstram que o transtorno possui níveis de intensidade e que, de cada 100 pessoas, em torno de 04 a 05 podem apresentar sintomas característicos ao distúrbio.

Os psicopatas se apresentam, na maioria dos casos, como simpáticos e amáveis. São sempre cativantes e, muitas vezes, prestativos. A sedução é uma das características marcantes deste personagem. Também são inteligentes e sábios. O lado negativo fica por conta da frieza e dos cálculos estrategistas diante das situações, pois não sentem culpa alguma. Além disso, o remorso não faz parte de seu rol de sentimentos. Psicanaliticamente falando, possuem uma predominância da instância psíquica de personalidade ID, o que explica o modo de vida voltado, único e exclusivamente para seu prazer pessoal e para o atingimento de seus objetivos e metas. Não importa o que o outro sente ou quer, importa o que eu desejo – essa é a bandeira que um psicopata empunha.

A psicopatia é muitas vezes confundida com um transtorno de conduta. O diagnóstico final que decreta afetações do transtorno relata disfunções neurológicas associadas a um conjunto de sentimentos influenciados por crenças limitantes natas ou aprendidas ao longo da vida. Os primeiros sinais podem aparecer ainda quando criança, em um grau mais leve e moderado. Por isso, é muito importante um acompanhamento profissional de perto quando se identificar qualquer indício de alteração comportamental motivado por perversidades e frieza. Um psicopata, quando criança, apresenta algumas características muito peculiares como: mentiras frequentes, dificuldade em seguir regras, são antissociais, insensibilidade emocional, conturbações ao tentar manter amizades, praticam bullying e até podem vir a cometer pequenos delitos transgressores, como roubos, violências e vandalismos. Mas cuidado, o diagnóstico final que decreta que a pessoa pode ser um psicopata ou não, para ser realmente finalizado com êxito, pauta-se na ancoragem de intensidade e frequência com que esses episódios e comportamentos acontecem. O mais comum é que, por serem muito inteligentes e inquietos quanto à busca por conhecimento, a grande maioria dos psicopatas têm ciência das características do seu posicionamento destoante dentro da sociedade e, com isso, camuflam seus reais sentimentos e ações – o que causa grande dificuldade na definição do distúrbio.

Visto que existem diferentes graus de psicopatia, que variam desde os mais leves, moderados e até os graves, podemos afirmar que nem todos chegam a se tornar assassinos. Podem desempenhar papéis de destaque em seu meio social e usar de algum poder conferido a eles para praticar delitos com total frieza emocional que, em muitos casos, chegam a impressionar. Podendo também ser autores de fraudes, golpes, estelionatos e roubos.

Os psicopatas podem, ainda, mostrar uma faceta carregada de sinais que demonstram que o distúrbio da psicopatia é latente. São eles: egocentrismo; mentiras; trapaças e manipulações; ausência de culpa, remorso e empatia; observação constante ao comportamento do outro, analisando os passos de suas vítimas; alterações severas de humor, com ataques de agressividade; podem ser superficiais e eloquentes; estão sempre envolvendo emocionalmente as pessoas que se encontram vulneráveis; vivem a elogiar todos e a perfeição faz parte de seus objetivos. Porém, os psicopatas nunca buscam ajuda porque não se sentem incomodados com suas ações. São desprovidos de sentimentos e mudar não está nunca em seus planos.

Analisando o perfil da mãe do pequeno Henry, podemos identificar indícios claros de desenvolvimento de uma personalidade de natureza narcísica perversa, onde a maior preocupação é consigo mesma. Pessoas que apresentam esse distúrbio estão sempre em busca da perfeição estética, afinal manter uma máscara sedutora para a sociedade é o mais importante. O foco está sempre voltado para as aparências, onde o excesso de vaidade prevalece em detrimento da empatia e compaixão pelo outro. Não conseguem fazer muitos vínculos emocionais e uma pitada de egoísmo está sempre presente em seu caráter perturbador.Esse perfil narcísico, normalmente, não consegue se abalar com o luto. E isso ficou claro, na história triste e dramática do filho, vítima de maus tratos e agressões.

A junção destas duas personalidades doentias, certamente, foi o estopim determinante na morte trágica da criança de quatro anos. A busca por poder e status percebida em ambos personagens descritos aqui, padrasto e mãe, associada a todas as características de desvios de conduta e de transtornos, foram fatores cruciais que completam essa receita desastrosa que culminou na morte de uma criança indefesa, vulnerável e sofrida.

Portanto, o casamento do narcísico e do psicopata pode potencializar a perversidade severa que irá rejeitar a presença de um terceiro personagem. Provavelmente, motivo que levou às práticas de maus-tratos, com o intuito consciente e velado de eliminar um obstáculo: o menino. O casal, motivado por seus sintomas transgressores, não conseguiam transmitir afeto e amor para a criança. Visto que a sedução doentia e aparente da mãe e o papel forçado de bom moço e bom político do padrasto misturou-se com a perversidade e frieza requintada presentes no crime. Enfim, se nem tudo que reluz é ouro, fica claro que todo o cuidado é pouco no quesito relacionamentos. O charme e a inteligência utilizados para impressionar e seduzir o outro podem ser ingredientes bombásticos. Neste caso, a ausência de sentimentos denuncia os fatos e, infelizmente, Henry foi vítima do lado sombrio da mente de pessoas que deveriam apenas proteger e amar.

 

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